domingo, 14 de dezembro de 2008

Estratégia Evolutivamente Estável


Segundo Richard Dawkins a Estratégia Evolutivamente Estável (EEE) é o conceito mais importante para compreensão do equilíbrio da natureza biológica depois do próprio conceito da evolução darwiniana.

A teoria da EEE foi desenvolvida por Maynard Smith e prediz que se estabelece um equilíbrio em grupos de seres vivos pelas forças da seleção natural até o ponto que este equilíbrio não será abalado por indivíduos que eventualmente tirariam vantagem (trapaceiros) do grupo estável.

Vou usar um exemplo em política para explicar aproximadamente o que seria a EEE: Suponha uma eleição para vereador em uma cidade. Surge um candidato que trapaceie e ofereça uma bicicleta a cada eleitor que votar nele. Este candidato começa a ter mais votos nas pesquisas de opinião e sua candidatura cresce. Então seus concorrentes começam a entender que a trapaça do primeiro é vantajosa e começam a oferecer presentes para os eleitores. Desse modo todos se tornam trapaceiros e a eleição corre o risco de entrar em colapso por falta de honestidade geral.

Porém pouco antes do colapso surge um candidato que percebe que se todos se tornaram trapaceiros ele resolve não trapacear e usa justamente o argumento de que é o único honesto, que não oferece presentes em troca de votos, para conquistar os eleitores. Esse individuo começa a subir nas pesquisas de modo que outros candidatos começam a copiar seu comportamento , surgindo uma nova onde de honestos, até que outra vez, num grupo de candidatos honestos, surge um trapaceiro que oferece uma bicicleta e de novo e o ciclo se repete.

O grupo de vereadores candidatos, ficará estável quando houver uma relação numérica entre honestos e trapaceiros de maneira que nem a eleição entre em colapso e nem que o fato de ser honesto não seja um argumento vantajoso.

Transportando para a natureza este exemplo, seria assim: O primeiro candidato desonesto, o da bicicleta, seria um indivíduo com temperamento trapaceiro por exemplo, um pássaro que levasse seus ovos para que um vizinho tivesse o trabalho de cuidar destes enquanto o trapaceiro tivesse mais tempo de acasalar com outros parceiros. Com o tempo este indivíduo começaria a deixar mais descendentes com temperamento igual ao seu de modo que prevalecem os trapaceiros e neste caso já não existiriam pássaros dispostos a cuidar de ovos.

Aí nasce aleatoriamente um indivíduo que por temperamento prefere cuidar ele mesmo de seus ovos em vez de priorizar a quantidade de acasalamentos e dessa maneira começa a deixar mais descendentes bons cuidadores, que começam a prevalecer na população, até que de novo nasça um trapaceiro que se aproveite dos cuidadores de ovos. A estabilidade ocorre quando a relação entre trapaceiros e cuidadores não inviabilize a existência desta espécie, mas que contemple um número estável de trapaceiros.

sábado, 22 de novembro de 2008

O natural e o humano


Na natureza é normal os animais avaliarem se um filhote nasce em condições de sobrevivência ou não. Aqueles que apresentam alguma deficiência são deixados de lado pelos pais, que passam a investir na prole que aparenta ter melhores condições.

Nos humanos alguns grupos praticam o infanticídio em situações em que a criança nasce com alguma vulnerabilidade que inviabilize o investimento parental em detrimento a outros filhos já nascidos ou por nascer.

Nessas culturas em que o infanticídio é uma possibilidade, a mãe nunca esquece a dor desta perda e dificilmente esquece a criança sacrificada. Portanto um acontecimento muito sentido e relevante na vida de uma mulher.

Rituais como o batismo e a circuncisão nos judeus, feitos após algum período do nascimento, podem ser entendidos aproximadamente, como o início do investimento formal a partir da certeza da saúde da criança.

Apesar de sermos parte da natureza, nossa espécie tem uma diferença fundamental em relação aos outros animais: A intensidade do sofrimento emocional.

Podemos supor que um chipanzé sofra com a perda de um filhote, mas nada comparável ao que nós humanos sofremos. O maior cérebro em relação ao corpo dentre todos os animais nos dotou da nossa maior habilidade: a inteligência. A mesma que nos faz sofrer pelo entendimento do absolutismo da perda de um filho em qualquer circunstância.

Imagino a “surpresa” dos nossos ancestrais que começaram antever e entender situações que podiam levar ao estado de algo inédito: o sofrimento emocional.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Psicologia do golpe do seqüestro


Muita gente no Rio de Janeiro tem sido vítima do golpe do seqüestro por telefone. Bandidos ligam para a casa da pessoa, dizendo que estão com um parente e pedem um dinheiro que deverá ser levado em algum ponto da cidade em troca do parente em questão. Geralmente eles instigam a pessoa a dizer o nome do seu próprio filho sem perceber e usam esse nome para desesperar a vítima.

Mas o que me tem chamado a atenção é o fato de que mesmo sabendo deste golpe já muito divulgado, as pessoas caem nele assim mesmo.

E o mais extraordinário é o seguinte: Todas as mães de conhecidos que tenho conversado (inclusive a minha própria), juram que ouviram a voz de seus filhos no fundo, pedindo ajuda. É quase um experimento involuntário e mórbido da incrível distorção que podemos fazer de nossos sentidos. Essas mães por algum mecanismo emocional incrível ouvem a voz de seus filhos mesmo não sendo eles a gritar no fundo na ligação.

Imagino que as mães quando percebem do que se trata o telefonema acima, colocam toda a sua atenção sensorial em cada micro ruído que seu ouvido é capaz de ouvir vindo do outro lado da linha. Esta super atenção, estando elas sob estresse, deve confundir a capacidade de avaliação da vítima a ponto dela acabar sucumbindo pela forte emoção.

Essa questão me veio à cabeça quando estava lenda um texto sobre “lembrança de vidas passadas” e também considerei as pessoas que juram terem vistos ETs, enfim crenças não comprovadas cientificamente mas que rondam o imaginário de um modo geral. A certeza que as pessoas têm de terem presenciado aparições ou fenômenos dessa natureza, deve ter um mecanismo cerebral semelhante de engano ou auto-convencimento ao que as mães acima sofrem.

Não é a toa que no meu caso particular foi meu padrasto que é Físico, portanto um homem acostumado com evidências, que salvou minha mãe do golpe, tendo a idéia de falar um nome qualquer para induzir o bandido ao erro evidenciando que se tratava de um golpe.

sábado, 8 de novembro de 2008

Solidariedade à dor alheia


A capacidade de identificar e compartilhar o sentimento de outra pessoa é uma das características mais impressionantes da nossa espécie.

Imagine alguns antílopes confortando uma antílope mãe, após seu filhote ter sido caçado por leões!!!

Nossa espécie é a única que conforta seus semelhantes na dor. Somos capazes de identificar a dor do outro e sentir fisiologicamente o que este outro deve estar sentindo.

Se o vizinho com quem nunca falamos antes perde um filho jovem, somos capazes de chorar pela dor que ele deverá estar passando.

Em algum momento da nossa evolução passamos a ter comportamentos que vão além dos mínimos necessários para simplesmente comer e reproduzir. Pelo menos comportamentos diretos para estes fins.

Funcionou assim:
Em algum momento da nossa vida ancestral, os indivíduos que tinham a capacidade de se solidarizar deixaram mais descendentes do que aqueles que não se solidarizavam. Até o ponto que os últimos praticamente desapareceram. Portanto ser solidário, ser capaz de sentir o que o outro está sentindo, passou a ser mais vantajoso evolutivamente falando, do que não o ser.

Nenhuma outra característica nos tornou mais “homo sapiens sapiens” do que esta. Nada nos distingue tanto entre os outros animais, do que ser capaz de confortar um de nós que sofre.

As pressões evolutivas que forjaram a empatia, a solidariedade nos humanos, acabaram por criar um das dinâmicas comportamentais mais impressionantes da evolução.

domingo, 19 de outubro de 2008

Comentário sobre o seqüestro de Santo André


Os psicólogos Margo Wilson e Martin Dale fizeram uma pesquisa em que eles mostram que de modo geral o homem tem em relação à sua mulher o mesmo conjunto de crenças cognitivas relativo ao conceito de "propriedade".

Lindemberg por conta de seu desequilíbrio deve ter sido consumido por este módulo instintivo e processado mal o fim do romance com Eloá a quem namorava desde que ela tinha 12 anos o que talvez tenha concorrido para confundir Eloá com “sua propriedade”.

Fiquei especulando em como se resolvia uma questão dessa natureza em nosso período pré-civilização, pré “Estado”. Um homem de uma família se apodera de uma mulher de outra família e por esta não o querer mais, ele a assassina. Vingança mortal por parte da família da moça em relação ao assassino, na certa.

Quando o Estado é inaugurado como detentor dos meios de resolução deste conflito, espera-se que ele dê conta de alguma espécie de instinto de “vingança” que faz parte da nossa natureza ancestral. Seria nosso Estado, nossa justiça capaz de corresponder a esta expectativa?

Por que suponho que a maioria dos brasileiros não se sentirão satisfeitos com a possível condenação que se dará a Lindemberg por maior que ela seja dentro de nossas leis?

O desafio do Estado é como “resolver” esta vingança institucional sem nos sentirmos bárbaros.

domingo, 12 de outubro de 2008

Natureza humana


Tenho gostado muito de postar enquetes pois elas mostram o que tem de similar no modo de agir e pensar nos humanos independente de sua cultura de origem. Ou alguém imagina que na enquete da casa em chamas um inomani, um aborígene, um esquimó, salvaria 20 estranhos e não seu filho?

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Comentário sobres as enquetes ao lado


Na enquete da "casa em chamas" me surpreende as pessoas que não salvariam seu filho e sim seus sobrinhos mesmo sendo percentualmente pouco numerosas . Não estou dizendo que seja um absurdo. Na verdade é admirável e me parece que em se tratando de comportamentos humanos temos que falar sempre em pré disposições, tendências e estatísticamente mais provável...ou coisa parecida pois é difícil ver uma enquete com boa elaboração que não apresente um número de respostas que surpreendam até mesmo um psicólogo evolucionista como eu.

Na outra enquete o que me chama a atenção é que apenas um número pequeno de pessoas supõem que o psicoterapeuta "vai se tornar um conselheiro bem objetivo". Por que um conselheiro bem objetivo não seria uma ótima idéia? Não seria essa a melhor ajuda que um psicoterapeuta poderia dar para clientes com nível mínimo de maturidade?

Há uma necessidade da terapia oferecer ferramentas para o sujeito chegar a suas próprias conclusões. Mas um bom papo, um papo franco, com conselhos objetivos e se explicando o porquê se chegou a esta ou aquela opção, é ainda mais potente para dotar o cliente de ferramentas. E ainda, o conselho do terapeuta é um conselho apenas e não uma ordem. Podemos dar um conselho ruim e o cliente deve saber que esta possibilidade pode acontecer. Assim como aprendi com minha mestra Eloísa(Lita)Vidal que um psicoterapeuta nunca deve se apaixonar pelas suas hipóteses e que essas devem ser construídas como "castelos de areia" e não de "cimento", o mesmo se aplica aos conselhos.

Atualmente quando ouço de um psicoterapeutas que não opina, não da sua opinião pessoal, este me parece inseguro e irreal. Não há uma boa teoria que justifique esta prática.